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asa de papel com chá

Apago as estrelas, já tão amarrotadas pelo traço da ilusão e no caminho da solidão, visto um pijama céu de jasmim. A minha vida é um desenho diluído em chá. Bebes? 

5.7.09

16:16 - Os corvos

...

nicoletta ceccoli. crows.

I
Estranho esta forma de solidão. Não sei reconhecer-me nela, ou em mim. Talvez seja também eu solidão, e uma solidão nunca se reconhece noutra solidão. Mas eu não estou só, tenho dentro de mim um outro ser, alguém que chora e ri, alguém que eu reconheço e desconheço, alguém que me acompanha nas insónias e nas memórias.


II
Dentro de mim vive um bicho estranho. Um bicho que sangra. Um bicho que geme. Um bicho com fome de bicho. Fome de ser e sentir.
Um bicho que eu tento calar, que eu tento matar. Um bicho que eu amo profundamente.
E profundamente meu, ele grita…


III
Dói-me a barriga.


IV
Os corvos vivem em bandos com estrutura hierárquica bem definida e formam, geralmente, casais monogâmicos. A sua alimentação é omnívora e inclui pequenos invertebrados, sementes e frutos. São aves que apresentam um comportamento complexo e que exibem sinais de inteligência, planeamento e comunicação entre indivíduos. Na mitologia, os corvos são vistos geralmente como portadores de maus presságios, devido à sua plumagem negra e hábitos necrófagos. Dentro da simbologia alquímica, o corvo manteve sempre uma certa representação alegórica da solidão.


V
Onde estou e onde sou?


VI
Dentro de mim vive um bicho estranho. Um bicho com fome de bicho. Um bicho com fome de cor.

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30.6.09

03:17 - Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas.

Gilad Benari.Street Survivors.2007


I
Cubro-te de beijos. Percorro-te. Desenfreadamente. A maciez da pele, o respirar tosco, o olhar sibilante. Sou das tuas mãos. Do teu amor. Aconchego-te a roupa, enrosco-me no teu calor. Sou um gato, uma bailarina doida. Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas. Sou do teu amor. Deixo-me estar. E um rio… um silêncio… uma forma de música invade-me o corpo. Sou o sol. E tu a luz.


II
Pinto-te as cores. Peço-te os minutos, as asas e os pés. Mio. Quero ser um gato. Enroscar-me no teu calor, pertencer ao teu carinho. Peço-te os minutos, as asas e os pés. Sou uma bailarina, numa dança tosca, onde percorro a maciez da tua pele, onde me perco no teu olhar. E sonho o sol. Os dias de sol ao quadrado.

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13.6.09

02:22 - Chá de primavera rosa magenta

Hadley Hutton. With in.


Tenho uma imensa curiosidade em conhecer a sua história de vida.
- Quando morreste?
Gostava de lhe perguntar, quando morreu.
Mas é incrível como mantém os dentes brancos. E reparei que hoje mudou de calças.
Nunca me abordou. Eu gostava. Gostava de olhar para os olhos dele, gostava de ver o que os olhos vêm. Talvez perceba, se morreu. Talvez perceba, se há uma história, se há uma vida. Talvez consiga saber o exacto momento da morte dele.
Às vezes penso que há qualquer coisa que me falha. É certo que se arrasta, mas tem os dentes brancos, e é delicado, ou pelo menos parece, quando o vejo da minha janela.
É, da minha janela, eu consigo distinguir muito bem a idade dos mortos. Depende da hora a que passam, do número de vezes, se mancam, ou se só se arrastam. Depende da forma como inclinam o corpo quando pedem, da distância que mantêm das pessoas que abordam, da forma como se assoam, como se coçam, como fingem chorar. Depois, a roupa, o cabelo e por fim, o olhar. Mas o olhar é muito difícil de reconhecer da minha janela. O olhar é mesmo muito difícil.
Mas também, que interessa?! Um morto não tem olhos. Mas talvez, talvez eles não estejam mortos. Talvez eles sejam só fantasmas. E eu, tenho medo de fantasmas. Tenho medo de fantasmas e tropeço com uma grande facilidade.
Claro que agora posso falar de passarinhos. Eu sempre gostei de falar de passarinhos, e de
flores ao pequeno almoço, e de cores, e de poesia para embalar os sonhos.
- Hoje provei um chá delicioso. Chá de primavera rosa magenta, com um pouco de açúcar
.

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